De
onde o nosso protagonista veio, ninguém nunca soube. Talvez dum sertão
distante, onde faz muito calor; talvez dum pantanal úmido e fétido. Sabe-se lá.
Uma tez cor de cobre, com esquisitos e predominantes sulcos de acne. Tinha um
olhar de índio traiçoeiro, bem repuxado no canto dos olhos, pequenas fendas ao
menor sorriso – que fazia contorcer de tal forma a face, que poderia achá-lo em
uma dor lancinante. Talvez tivesse vindo como um retirante: grandes trouxas de
roupas às costas, parado em uma rodoviária escura, estranha e indiferente às
grandes esperanças que o nosso herói trazia; esperanças que eram seu único, mas
potente alimento. Talvez tivesse sofrido muito com a seca ou com o alagamento.
Ninguém nunca soube.
Fez
seu Ensino Médio naquele colégio público, à época, o melhor. Isso, isso, esse
mesmo, centrado no meio da avenida. Foi vermelho do coração, eterno militante,
devoto ferrenho do social, perseguidor dos progressistas, amante dos hipócritas
– que exilados, transformaram-se em grandes mártires de um período deveras
obscuro. Levantou muitas faixas, marchou demais. Levou muitas pancadas de
cassetete, encomiava-se das marcas. Como bom vermelho que era, um modelo do
puxa-saquismo de sobrevivência. Bastante ardiloso, sabia transitar pelos dois
lados: o vil metal, caros.
Pateticamente, transformava o trabalho em instrumento de politização, numa
grande Inquisição, em que se caçavam as bruxas: que eram quase todos. Recalcado
que era, verdadeiro mestre nas maldades finas. Muito ensinou a uns poucos
ingênuos – idiotas o suficiente para se importar com qualquer opinião emitida –
o silêncio de convenção e o outro lado da crueldade humana. Como bom vermelho
que era, um contraditório. Discursando e condenando o período mais “obscuro da
história destepaiz”, em pequena
escala, fazia e ensinava exatamente o condenado: o silêncio de convenção e a
crueldade em prol do estabelecimento de uma ideia pífia.
Como
todo bom vermelho, dado a falsos intelectualismos. Desconhecia a maior parte do
que, supostamente, deveria conhecer. Mas era muito ardiloso, todo sorrisos
amarelo-falsidade. Enganou muita gente, durante muito tempo, muito
inacreditavelmente. Engabelou gente de bom coração, boa índole, enganou gente
inteligente, muita gente sem maldade.
Como
o nosso herói era ardilosamente ardiloso, nunca foi pego, nem ensinado. A vida
tampouco se importou: deixou-o escapar incólume.